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segunda-feira, 27 de abril de 2015
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
LEITURA RECOMENDADA - MORFOLOGIA
Mais tarde, Jakobson e a Escola Fonológica de Praga irão estabelecer definitivamente a distinção entre som material e imagem acústica. Ao primeiro chamaram de fone, objeto de estudo da Fonética. À imagem acústica denominaram de fonema, conceito amplamente aceito e consagrado pela Fonologia.
Os dois elementos – significante e significado – constituem o signo “estão intimamente unidos e um reclama o outro” (p. 80). São interdependentes e inseparáveis, pois sem significante não há significado e sem significado não existe significante. Exemplificando, diríamos que quando um falante de português recebe a impressão psíquica que lhe é transmitida pela imagem acústica ou significante / kaza /, graças à qual se manifesta fonicamente o signo casa, essa imagem acústica, de imediato, evoca-lhe psiquicamente a idéia de abrigo, de lugar para viver, estudar, fazer suas refeições, descansar, etc. Figurativamente, diríamos que o falante associa o significante / kaza / ao significado domus (tomando-se o termo latino como ponto de referência para o conceito).
Quanto ao princípio da arbitrariedade, Saussure (p. 83) esclarece que arbitrário
Um exemplo bastante representativo da ausência de vínculo natural entre o significante e o significado é o dos verbos depoentes latinos. Nestes, a forma é passiva, entretanto, o sentido é ativo: sequor “sigo” (e não “sou seguido”), utor “uso” (e não “sou usado”). Nestes signos, o grau de arbitrariedade é extremo, não havendo sequer coerência morfossemântica entre o significante e o significado.
Na verdade, existem dois sentidos para arbitrário:
a) o significante em relação ao significado:
livro, book, livre, Buch, liber, biblion, etc. (significantes diferentes para um mesmo significado);
b) o significado como parcela semântica (em oposição à totalidade de um campo semântico):
ingl. teacher / professor port. professor
ingl. sheep / mutton port. carneiro
Apesar de haver postulado que o signo linguístico é, em sua origem, arbitrário, Saussure não deixa de reconhecer a possibilidade de existência de certos graus de motivação entre significante e significado. Em coerência com seu ponto de vista dicotômico, propõe a existência de um “arbitrário absoluto” e de um “arbitrário relativo”. Como exemplo de arbitrário absoluto, o mestre de Genebra cita os números dez e nove, tomados individualmente, e nos quais a relação entre o significante e o significado seria totalmente arbitrária, isto é, essa relação não é necessária, é imotivada. Já na combinação de dez com nove para formar um terceiro signo, a dezena dezenove, Saussure acha que a arbitrariedade absoluta original dos dois numerais se apresenta relativamente atenuada, dando lugar àquilo que ele classificou como arbitrariedade relativa, pois do conhecimento da significação das partes pode-se chegar à significação do todo.
O mesmo acontece no par pera / pereira, em que pera, enquanto palavra primitiva, serviria como exemplo de arbitrário absoluto (signo imotivado). Por sua vez, pereira, forma derivada de pera, seria um caso de arbitrário relativo (signo motivado), devido à relação sintagmática pera (morfema lexical) + -eira (morfema sufixal, com a noção de “árvore”) e à relação paradigmática estabelecida a partir da associação de pereira a laranjeira, bananeira, etc., uma vez que é conhecida a significação dos elementos formadores.
A respeito da linearidade, este é um princípio que se aplica às unidades do plano da expressão (fonemas, sílabas, palavras), por serem estas emitidas em ordem linear ou sucessiva na cadeia da fala. Esse princípio é a base das relações sintagmáticas, assunto que abordaremos mais adiante.
A língua, como acervo linguístico, é “o conjunto dos hábitos linguísticos que permitem a uma pessoa compreender e fazer-se compreender” (p. 92). A língua é “uma soma de sinais depositados em cada cérebro, mais ou menos como um dicionário cujos exemplares, todos idênticos, fossem repartidos entre os indivíduos” (p. 27). E, com todo o respeito a Saussure, acrescentaríamos nós: um dicionário e uma gramática, cuja extensão será proporcional ao conhecimento e à percepção linguística do falante.
Na condição de acervo, a língua guarda consigo toda a experiência histórica acumulada por um povo durante a sua existência. Disso nos dá testemunho o latim, símbolo permanente da cultura e das instituições romanas. Também o português, nos seus oito séculos de existência, acumulou um rico e notável acervo linguístico e literário. Importante língua de cultura, constitui tesouro comum dos povos irmanados pela lusofonia.
Como instituição social, a língua “não está completa em nenhum [indivíduo], e só na massa ela existe de modo completo” (p. 21), por isso, ela é, simultaneamente, realidade psíquica e instituição social. Para Saussure, a língua “é, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos” (p. 17); é “a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la; ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade” (p. 22).
A visão da língua como realidade sistemática e funcional é o conteúdo mais importante da concepção saussuriana. Para o mestre de Genebra, a língua é, antes de tudo, “um sistema de signos distintos correspondentes a idéias distintas” (p. 18); é um código, um sistema onde, “de essencial, só existe a união do sentido e da imagem acústica” (p. 23). Saussure vê a língua como um objeto de “natureza homogênea” (p. 23) e que, portanto, se enquadra perfeitamente na sua definição basilar: “a língua é um sistema de signos que exprimem idéias” (p. 24). Essa concepção da língua como sistema funcional está imbricada com a noção de valor (v. conclusão).
A fala, ao contrário da língua, por se constituir de atos individuais, torna-se múltipla, imprevisível, irredutível a uma pauta sistemática. Os atos linguísticos individuais são ilimitados, não formam um sistema. Os fatos linguísticos sociais, bem diferentemente, formam um sistema, pela sua própria natureza homogênea. Vale ressaltar, no entanto, que tanto o funcionamento quanto a exploração da faculdade da linguagem estão intimamente ligados às implicações mútuas existentes entre os elementos língua (virtualidade) e fala (realidade).
Quanto ao conceito de norma, trata-se de uma contribuição do linguista romeno Eugenio Coseriu, que propôs um acréscimo à dicotomia saussuriana. Sua tricotomia vai do mais concreto (fala, uso individual da norma) ao mais abstrato (língua, sistema funcional), passando por um grau intermediário: a norma (uso coletivo da língua). Em outras palavras, há realizações consagradas pelo uso e que, portanto, são normais em determinadas circunstâncias linguísticas, previstas pelo sistema funcional. É à norma que nos prendemos de forma imediata, conforme o grupo social de que fazemos parte e a região onde vivemos. A norma seria assim um primeiro grau de abstração da fala. Considerando-se a língua (o sistema) um conjunto de possibilidades abstratas, a norma seria então um conjunto de realizações concretas e de caráter coletivo da língua. Vejamos alguns exemplos da oposição norma / sistema no português do Brasil.
O conhecido [š], chiante pós-vocálica, variante de [s], é norma no Rio de Janeiro em todas as classes sociais: gás [gaš], mês [meš], basta [bašta]. Já no Sul, a pronúncia sancionada pelo uso (ou norma) é marcadamente alveolar: [basta], [mês], [gás]. No campo da Morfologia, o sistema dispõe dos sufixos -ada e -edo, ambos com o sentido de coleção. Enquanto, para designar grande quantidade de bichos, a norma culta prefere o primeiro (bicharada), a norma geral no falar gaúcho consagrou o segundo:bicharedo. O mesmo acontece com os sufixos diminutivos -inho e -ito, ambos disponíveis no sistema funcional: a norma fora do Rio Grande do Sul é dizer-se salaminho; já em terras gaúchas o uso sancionou salamito. No plano sintático, a língua (sistema) portuguesa dispõe dos advérbios já e mais, que, quando usados numa frase negativa, indicam a cessação de um fato ou de uma ação. A norma brasileira preferiu o segundo: “Eu não vou mais”; “Não chove mais”. A portuguesa optou pelo primeiro: “Eu já não vou”; “Jánão chove”. O português do Brasil prefere descrever um fato em progressão dizendo: “Estou estudando” (aux. + gerúndio); já em Portugal, a norma é usar-se aux. + infinitivo: “Estou a estudar”. Ainda com relação à norma brasileira, não podemos deixar de mencionar o uso consagrado do verbo ter no lugar de haver, com o sentido de “existir”, uso inclusive já referendado por vários autores brasileiros de peso, como Carlos Drummond de Andrade (“No meio do caminho tinha uma pedra”) e Manuel Bandeira (“Em Pasárgada tem tudo”), dentre outros.
Nesse sentido, cabe ressaltar que certos deslocamentos da norma, constantes e repetidos, podem, com o tempo, fazer evoluir (mudar) a língua. É o que vem ocorrendo, por exemplo, com a pronúncia do adjetivo “ruim”. A norma gramatical em vigor recomenda pronunciá-lo como hiato: ruím. Entretanto, a norma geral no português do Brasil é a sua realização como ditongo: rúim, malgrado os esforços da escola. É possível que no futuro seja esta a única pronúncia em vigor, tanto no sistema (língua) quanto na norma (uso).
As variantes diatópicas caracterizam as diversas normas regionais existentes dentro de um mesmo país e até dentro de um mesmo estado, como o falar gaúcho, o falar mineiro, etc. Por exemplo, “cair um tombo”, no Rio Grande do Sul; “levar um tombo”, no Rio de Janeiro.
As variantes diastráticas, intimamente ligadas à estratificação social, evidenciam a variedade de diferenças culturais dentro de uma comunidade e podem subdividir-se em norma culta padrão (ou nacional), norma coloquial (tensa ou distensa) e norma popular (também chamada de vulgar).
A norma culta é a modalidade escrita empregada na escola, nos textos oficiais, científicos e literários. Baseada na tradição gramatical, é a variante de maior prestígio sociocultural. Ex.: Há muito tempo não o vejo. Vendem-se carros. Havia dez alunos em sala.
A norma coloquial é aquela empregada oralmente pelas classes médias escolarizadas. Viva e espontânea, seu grau de desvio em relação à norma culta pode variar conforme as circunstâncias de uso. Ex.: Tem muito tempo que não lhe vejo / não vejo ele. Vende-se carros. Tinha dez alunos em sala.
A norma popular caracteriza a fala das classes populares semi-escolarizadas ou não-escolarizadas. Nessa modalidade, o desvio em relação à norma gramatical é maior, caracterizando o chamado “erro”. Ex.: A gente fomos na praia. Dois cachorro-quente custa três real.
Há também as variantes diafásicas, que dizem respeito aos diversos tipos de modalidade expressiva (familiar, estilística, de faixa etária, etc.).
Constatamos assim a pertinência da divisão tripartida de Coseriu. Todos os exemplos citados, quer caracterizando o falar de uma região, quer identificando o próprio português do Brasil, mostram a propriedade e a conveniência do fator intermediário norma entre a fala e a língua, fator este que tem por princípio realizar e dinamizar o sistema funcional (língua). Ressalve-se, contudo, que a concepção saussuriana da língua como instituição social se aproxima, de certo modo, da teoria da norma de Coseriu.
Saussure considera prioritário o estudo sincrônico porque o falante nativo não tem consciência da sucessão dos fatos da língua no tempo. Para o indivíduo que usa a língua como veículo de comunicação e interação social, essa sucessão não existe. A única e verdadeira realidade tangível que se lhe apresenta de forma imediata é a do estado sincrônico da língua. Além disso, como a relação entre o significante e o significado é arbitrária, estará continuamente sendo afetada pelo tempo, daí a necessidade de o estudo da língua ser prioritariamente sincrônico. Sirva de exemplo o substantivo romaria, que significava originalmente “peregrinação a Roma para ver o Papa”. Hoje, no entanto, é usado unicamente para designar “peregrinação religiosa em geral”. Entre nós, por exemplo, são muito comuns as romarias a Aparecida do Norte,em São Paulo.
Advirta-se, contudo, o seguinte: Saussure postula a prioridade da sincronia e, convém lembrar, prioridade não significa exclusividade. De nossa parte, entendemos a distinção sincronia / diacronia unicamente como procedimentos metodológicos de análise linguística. A esse respeito, ouçamos as ponderações, até certo ponto premonitórias, do próprio Saussure (p. 16):
Encarados sob essa perspectiva, os pontos de vista sincrônico e diacrônico não são excludentes, ao contrário, são complementares. Seja como for, vale registrar que Saussure, deixando de se preocupar com o processo pelo qual as línguas se modificam, para tentar saber o modo como elas funcionam, deu, coerentemente, primazia ao estudo sincrônico, ponto de partida para a Linguística Geral e o chamado método estruturalista de análise da língua.
As relações sintagmáticas baseiam-se no caráter linear do signo linguístico, “que exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo” (p. 142). A língua é formada de elementos que se sucedem um após outro linearmente, isto é, “na cadeia da fala” (p. 142). À relação entre esses elementos Saussure (p. 142) chama de sintagma:
Por outro lado, fora do discurso, isto é, fora do plano sintagmático, se, em “Hoje fez calor”, dizemos hoje pensando opô-lo a outro advérbio, ontem, por exemplo, ou fez em oposição a faz, e calor a frio, estabelecemos uma relação paradigmática associativa ou in absentia, porque os termos ontem, faz e frio não estão presentes no discurso. São elementos que se encontram na nossa memória de falante “numa série mnemônica virtual”, conforme esclarece Saussure na pág. 143 do CLG.
O paradigma é assim uma espécie de “banco de reservas” da língua, um conjunto de unidades suscetíveis de aparecer num mesmo contexto. Desse modo, as unidades do paradigma se opõem, pois uma exclui a outra: se uma está presente, as outras estão ausentes. É a chamada oposição distintiva, que estabelece a diferença entre signos como gado e gato ou entre formas verbais como estudava e estudara, formados respectivamente a partir da oposição sonoridade / não-sonoridade e pretérito imperfeito / mais-que-perfeito. A noção de paradigma suscita, pois, a idéia de relação entre unidades alternativas. É uma espécie de reserva virtual da língua.
Define-se o sintagma como “a combinação de formas mínimas numa unidade linguística superior”. Trata-se, portanto, de relações (relação = dependência, função) onde o que existe, em essência, é a reciprocidade, a coexistência ou solidariedade entre os elementos presentes na cadeia da fala. Essas relações sintagmáticas ou de reciprocidade existem, a nosso ver, em todos os planos da língua: fônico, mórfico e sintático, ao contrário do que deixa entrever a definição do próprio Saussure, que nos induz a conceber o sintagma apenas nos planos mórfico e sintático. Sendo assim, o sintagma, em sentido lato, é toda e qualquer combinação de unidades linguísticas na sequência de sons da fala, a serviço da rede de relações da língua. Por exemplo, no plano fônico, a relação entre uma vogal e uma semivogal para formar o ditongo (ai /ay/); no nível mórfico, a própria palavra, com seus constituintes imediatos, é um sintagma lexical (am + a + va + s); sintaticamente, a relação sujeito + predicado caracteriza o sintagma oracional (Pedro / estudou a lição.).
No plano do conteúdo, as relações paradigmáticas baseiam-se na similaridade de sentido, na associação entre o termo presente na frase e a simbologia que ele desperta em nossa mente. É o caso da metáfora: “O pavão é um arco-íris de plumas.” (Rubem Braga), ou seja, arco-íris = semicírculo ou arco multicor. Embora presente no texto em prosa, a metáfora é mais usual na poesia.
Já a metonímia, mais comum na prosa, por basear-se numa relação de contiguidade de sentido, atua no eixo sintagmático. Ex.: O autor pela obra: “Gosto de ler Machado de Assis”; a parte pelo todo: “Os desabrigados ficaram sem teto” (= casa); o continente pelo conteúdo: “Tomei um copo de vinho” (o vinho contido no copo), etc.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. Trad de A. Chelini , José P. Paes e I. Blikstein. São Paulo: Cultrix; USP, 1969.
SAUSSURE E A LÍNGUA PORTUGUESA
Castelar de Carvalho (UFRJ, ABF)
A vitalidade
do pensamento saussuriano, com o passar do tempo, só tem feito renovar sua
atualidade. Nos últimos anos, tem se multiplicado a bibliografia sobre sua
doutrina, difundida a partir da publicação do livro clássico Curso de linguística geral (CLG). As repercussões de suas
idéias motrizes, assim como as escolas delas decorrentes, criaram uma
metodologia prática e funcional de abordagem dos fatos linguísticos. Tal
metodologia pode ser aplicada com sucesso ao estudo e ao ensino de português,
como demonstra o nosso livro Para
compreender Saussure, hoje na 12ª edição, contendo os fundamentos e uma
visão crítica das iluminadas idéias do genial fundador da Linguística moderna,
além de exercícios com questões relativas à língua portuguesa. Neste artigo,
apresentaremos uma síntese de suas célebres dicotomias: semiologia / linguística,
signo: significado / significante, arbitrariedade / linearidade, linguagem:
língua / fala (norma), sincronia / diacronia, sintagma / paradigma e o
corolário de tudo isso: a noção de valor.
Semiologia / Linguística
A Semiologia
(ou Semiótica) é a teoria geral dos sinais. Ela difere da Linguística por sua
maior abrangência: enquanto a Linguística é o estudo científico da linguagem
humana, a Semiologia preocupa-se não apenas com a linguagem humana e verbal,
mas também com a dos animais e de todo e qualquer sistema de comunicação, seja
ele natural ou convencional. Desse modo, a Linguística insere-se como uma parte
da Semiologia. Semiologia e Semiótica são termos permutáveis. A primeira surgiu
na Europa, com Saussure, e a segunda, nos Estados Unidos, com o filósofo
Charles Sanders Peirce.
O signo linguístico
arbitrariedade / linearidade
Saussure
define o signo como a
união do sentido e da imagem acústica. O que ele chama de “sentido” é a mesma
coisa que conceito ou idéia,
isto é, a representação
mental de um objeto ou da realidade social em que nos situamos, representação
essa condicionada pela formação sociocultural que nos cerca desde o berço. Em
outras palavras, para Saussure, conceito é sinônimo de significado (plano das
idéias), algo como o lado espiritual da palavra, sua contraparte inteligível,
em oposição ao significante (plano da expressão), que é sua parte sensível. Por
outro lado, a imagem acústica “não é o som material, coisa puramente física,
mas a impressão psíquica
desse som” (CLG, p. 80). Melhor dizendo, a imagem acústica é o significante.
Com isso, temos que o signo linguístico é “uma entidade psíquica de duas faces” (p. 80), semelhante a uma
moeda.arbitrariedade / linearidade
Mais tarde, Jakobson e a Escola Fonológica de Praga irão estabelecer definitivamente a distinção entre som material e imagem acústica. Ao primeiro chamaram de fone, objeto de estudo da Fonética. À imagem acústica denominaram de fonema, conceito amplamente aceito e consagrado pela Fonologia.
Os dois elementos – significante e significado – constituem o signo “estão intimamente unidos e um reclama o outro” (p. 80). São interdependentes e inseparáveis, pois sem significante não há significado e sem significado não existe significante. Exemplificando, diríamos que quando um falante de português recebe a impressão psíquica que lhe é transmitida pela imagem acústica ou significante / kaza /, graças à qual se manifesta fonicamente o signo casa, essa imagem acústica, de imediato, evoca-lhe psiquicamente a idéia de abrigo, de lugar para viver, estudar, fazer suas refeições, descansar, etc. Figurativamente, diríamos que o falante associa o significante / kaza / ao significado domus (tomando-se o termo latino como ponto de referência para o conceito).
Quanto ao princípio da arbitrariedade, Saussure (p. 83) esclarece que arbitrário
... não deve dar a idéia de que o significado dependa da livre
escolha do que fala, [porque] não está ao alcance do indivíduo trocar coisa
alguma num signo, uma vez esteja ele estabelecido num grupo linguístico;
queremos dizer que o
significante é imotivado, isto é, arbitrário
em relação ao significado, com o qual não tem nenhum laço natural na
realidade. (grifo nosso)
Desse modo,
compreendemos por que Saussure afirma que a idéia (ou conceito ou significado)
de mar não tem nenhuma relação necessária e
“interior” com a sequência de sons, ou imagem acústica ou significante /mar/.
Em outras palavras, o significado mar poderia ser representado perfeitamente
por qualquer outro significante. E Saussure argumenta, para provar seu ponto de
vista, com as diferenças entre as línguas. Tanto assim que a idéia de mar é representada em inglês pelo
significante “sea” /si / e
em francês, por “mer” /mér/.Um exemplo bastante representativo da ausência de vínculo natural entre o significante e o significado é o dos verbos depoentes latinos. Nestes, a forma é passiva, entretanto, o sentido é ativo: sequor “sigo” (e não “sou seguido”), utor “uso” (e não “sou usado”). Nestes signos, o grau de arbitrariedade é extremo, não havendo sequer coerência morfossemântica entre o significante e o significado.
Na verdade, existem dois sentidos para arbitrário:
a) o significante em relação ao significado:
livro, book, livre, Buch, liber, biblion, etc. (significantes diferentes para um mesmo significado);
b) o significado como parcela semântica (em oposição à totalidade de um campo semântico):
ingl. teacher / professor port. professor
ingl. sheep / mutton port. carneiro
Apesar de haver postulado que o signo linguístico é, em sua origem, arbitrário, Saussure não deixa de reconhecer a possibilidade de existência de certos graus de motivação entre significante e significado. Em coerência com seu ponto de vista dicotômico, propõe a existência de um “arbitrário absoluto” e de um “arbitrário relativo”. Como exemplo de arbitrário absoluto, o mestre de Genebra cita os números dez e nove, tomados individualmente, e nos quais a relação entre o significante e o significado seria totalmente arbitrária, isto é, essa relação não é necessária, é imotivada. Já na combinação de dez com nove para formar um terceiro signo, a dezena dezenove, Saussure acha que a arbitrariedade absoluta original dos dois numerais se apresenta relativamente atenuada, dando lugar àquilo que ele classificou como arbitrariedade relativa, pois do conhecimento da significação das partes pode-se chegar à significação do todo.
O mesmo acontece no par pera / pereira, em que pera, enquanto palavra primitiva, serviria como exemplo de arbitrário absoluto (signo imotivado). Por sua vez, pereira, forma derivada de pera, seria um caso de arbitrário relativo (signo motivado), devido à relação sintagmática pera (morfema lexical) + -eira (morfema sufixal, com a noção de “árvore”) e à relação paradigmática estabelecida a partir da associação de pereira a laranjeira, bananeira, etc., uma vez que é conhecida a significação dos elementos formadores.
A respeito da linearidade, este é um princípio que se aplica às unidades do plano da expressão (fonemas, sílabas, palavras), por serem estas emitidas em ordem linear ou sucessiva na cadeia da fala. Esse princípio é a base das relações sintagmáticas, assunto que abordaremos mais adiante.
Língua / Fala (norma)
Esta é sua
dicotomia básica e, juntamente com o par sincronia / diacronia, constitui uma
das mais fecundas. Fundamentada na oposição social / individual, revelou-se com
o tempo extremamente profícua. O que é fato da língua (langue) está no
campo social; o que é ato da fala ou discurso (parole) situa-se na
esfera do individual. Repousando sua dicotomia na Sociologia, ciência nascente
e já de grande prestígio então, Saussure (p. 16) afirma e adverte ao mesmo
tempo: “A linguagem tem um lado individual e um lado social, sendo impossível
conceber um sem o outro”. Vale lembrar que, para Saussure, a linguagem é a
faculdade natural de usar uma língua, “ao passo que a língua constitui algo
adquirido e convencional” (p. 17). Do exame exaustivo do Curso, depreendemos três
concepções para língua: acervo linguístico, instituição social e realidade
sistemática e funcional. Analisemo-las à luz do CLG.A língua, como acervo linguístico, é “o conjunto dos hábitos linguísticos que permitem a uma pessoa compreender e fazer-se compreender” (p. 92). A língua é “uma soma de sinais depositados em cada cérebro, mais ou menos como um dicionário cujos exemplares, todos idênticos, fossem repartidos entre os indivíduos” (p. 27). E, com todo o respeito a Saussure, acrescentaríamos nós: um dicionário e uma gramática, cuja extensão será proporcional ao conhecimento e à percepção linguística do falante.
Na condição de acervo, a língua guarda consigo toda a experiência histórica acumulada por um povo durante a sua existência. Disso nos dá testemunho o latim, símbolo permanente da cultura e das instituições romanas. Também o português, nos seus oito séculos de existência, acumulou um rico e notável acervo linguístico e literário. Importante língua de cultura, constitui tesouro comum dos povos irmanados pela lusofonia.
Como instituição social, a língua “não está completa em nenhum [indivíduo], e só na massa ela existe de modo completo” (p. 21), por isso, ela é, simultaneamente, realidade psíquica e instituição social. Para Saussure, a língua “é, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos” (p. 17); é “a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la; ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade” (p. 22).
A visão da língua como realidade sistemática e funcional é o conteúdo mais importante da concepção saussuriana. Para o mestre de Genebra, a língua é, antes de tudo, “um sistema de signos distintos correspondentes a idéias distintas” (p. 18); é um código, um sistema onde, “de essencial, só existe a união do sentido e da imagem acústica” (p. 23). Saussure vê a língua como um objeto de “natureza homogênea” (p. 23) e que, portanto, se enquadra perfeitamente na sua definição basilar: “a língua é um sistema de signos que exprimem idéias” (p. 24). Essa concepção da língua como sistema funcional está imbricada com a noção de valor (v. conclusão).
A fala, ao contrário da língua, por se constituir de atos individuais, torna-se múltipla, imprevisível, irredutível a uma pauta sistemática. Os atos linguísticos individuais são ilimitados, não formam um sistema. Os fatos linguísticos sociais, bem diferentemente, formam um sistema, pela sua própria natureza homogênea. Vale ressaltar, no entanto, que tanto o funcionamento quanto a exploração da faculdade da linguagem estão intimamente ligados às implicações mútuas existentes entre os elementos língua (virtualidade) e fala (realidade).
Quanto ao conceito de norma, trata-se de uma contribuição do linguista romeno Eugenio Coseriu, que propôs um acréscimo à dicotomia saussuriana. Sua tricotomia vai do mais concreto (fala, uso individual da norma) ao mais abstrato (língua, sistema funcional), passando por um grau intermediário: a norma (uso coletivo da língua). Em outras palavras, há realizações consagradas pelo uso e que, portanto, são normais em determinadas circunstâncias linguísticas, previstas pelo sistema funcional. É à norma que nos prendemos de forma imediata, conforme o grupo social de que fazemos parte e a região onde vivemos. A norma seria assim um primeiro grau de abstração da fala. Considerando-se a língua (o sistema) um conjunto de possibilidades abstratas, a norma seria então um conjunto de realizações concretas e de caráter coletivo da língua. Vejamos alguns exemplos da oposição norma / sistema no português do Brasil.
O conhecido [š], chiante pós-vocálica, variante de [s], é norma no Rio de Janeiro em todas as classes sociais: gás [gaš], mês [meš], basta [bašta]. Já no Sul, a pronúncia sancionada pelo uso (ou norma) é marcadamente alveolar: [basta], [mês], [gás]. No campo da Morfologia, o sistema dispõe dos sufixos -ada e -edo, ambos com o sentido de coleção. Enquanto, para designar grande quantidade de bichos, a norma culta prefere o primeiro (bicharada), a norma geral no falar gaúcho consagrou o segundo:bicharedo. O mesmo acontece com os sufixos diminutivos -inho e -ito, ambos disponíveis no sistema funcional: a norma fora do Rio Grande do Sul é dizer-se salaminho; já em terras gaúchas o uso sancionou salamito. No plano sintático, a língua (sistema) portuguesa dispõe dos advérbios já e mais, que, quando usados numa frase negativa, indicam a cessação de um fato ou de uma ação. A norma brasileira preferiu o segundo: “Eu não vou mais”; “Não chove mais”. A portuguesa optou pelo primeiro: “Eu já não vou”; “Jánão chove”. O português do Brasil prefere descrever um fato em progressão dizendo: “Estou estudando” (aux. + gerúndio); já em Portugal, a norma é usar-se aux. + infinitivo: “Estou a estudar”. Ainda com relação à norma brasileira, não podemos deixar de mencionar o uso consagrado do verbo ter no lugar de haver, com o sentido de “existir”, uso inclusive já referendado por vários autores brasileiros de peso, como Carlos Drummond de Andrade (“No meio do caminho tinha uma pedra”) e Manuel Bandeira (“Em Pasárgada tem tudo”), dentre outros.
Nesse sentido, cabe ressaltar que certos deslocamentos da norma, constantes e repetidos, podem, com o tempo, fazer evoluir (mudar) a língua. É o que vem ocorrendo, por exemplo, com a pronúncia do adjetivo “ruim”. A norma gramatical em vigor recomenda pronunciá-lo como hiato: ruím. Entretanto, a norma geral no português do Brasil é a sua realização como ditongo: rúim, malgrado os esforços da escola. É possível que no futuro seja esta a única pronúncia em vigor, tanto no sistema (língua) quanto na norma (uso).
Tipos de Norma
As variantes
coletivas (ou subcódigos) dentro de um mesmo domínio linguístico dividem-se em
dois tipos principais: diatópicas (variantes ou normas regionais ) e
diastráticas (variantes culturais ou registros).As variantes diatópicas caracterizam as diversas normas regionais existentes dentro de um mesmo país e até dentro de um mesmo estado, como o falar gaúcho, o falar mineiro, etc. Por exemplo, “cair um tombo”, no Rio Grande do Sul; “levar um tombo”, no Rio de Janeiro.
As variantes diastráticas, intimamente ligadas à estratificação social, evidenciam a variedade de diferenças culturais dentro de uma comunidade e podem subdividir-se em norma culta padrão (ou nacional), norma coloquial (tensa ou distensa) e norma popular (também chamada de vulgar).
A norma culta é a modalidade escrita empregada na escola, nos textos oficiais, científicos e literários. Baseada na tradição gramatical, é a variante de maior prestígio sociocultural. Ex.: Há muito tempo não o vejo. Vendem-se carros. Havia dez alunos em sala.
A norma coloquial é aquela empregada oralmente pelas classes médias escolarizadas. Viva e espontânea, seu grau de desvio em relação à norma culta pode variar conforme as circunstâncias de uso. Ex.: Tem muito tempo que não lhe vejo / não vejo ele. Vende-se carros. Tinha dez alunos em sala.
A norma popular caracteriza a fala das classes populares semi-escolarizadas ou não-escolarizadas. Nessa modalidade, o desvio em relação à norma gramatical é maior, caracterizando o chamado “erro”. Ex.: A gente fomos na praia. Dois cachorro-quente custa três real.
Há também as variantes diafásicas, que dizem respeito aos diversos tipos de modalidade expressiva (familiar, estilística, de faixa etária, etc.).
Constatamos assim a pertinência da divisão tripartida de Coseriu. Todos os exemplos citados, quer caracterizando o falar de uma região, quer identificando o próprio português do Brasil, mostram a propriedade e a conveniência do fator intermediário norma entre a fala e a língua, fator este que tem por princípio realizar e dinamizar o sistema funcional (língua). Ressalve-se, contudo, que a concepção saussuriana da língua como instituição social se aproxima, de certo modo, da teoria da norma de Coseriu.
Sincronia / Diacronia
A sincronia é
o eixo das simultaneidades, no qual devem ser estudadas as relações entre os
fatos existentes ao mesmo tempo num determinado momento do sistema linguístico,
que pode ser tanto no presente quanto no passado. Em outras palavras, sincronia
é sinônimo de descrição, de estudo do funcionamento da língua. Por outro lado,
no eixo das sucessividades ou diacronia, o linguista tem por objeto de estudo a
relação entre um determinado fato e outros anteriores ou posteriores, que o
precederam ou lhe sucederam. E Saussure adverte que tais fatos (diacrônicos)
“não têm relação alguma com os sistemas, apesar de os condicionarem” (p. 101).
Em outras palavras, o funcionamento sincrônico da língua pode conviver
harmoniosamente com seus condicionamentos diacrônicos. Acrescente-se ainda que
a diacronia divide-se em história externa (estudo das relações existentes entre
os fatores socioculturais e a evolução linguística) e história interna (trata
da evolução estrutural – fonológica e morfossintática – da língua).Saussure considera prioritário o estudo sincrônico porque o falante nativo não tem consciência da sucessão dos fatos da língua no tempo. Para o indivíduo que usa a língua como veículo de comunicação e interação social, essa sucessão não existe. A única e verdadeira realidade tangível que se lhe apresenta de forma imediata é a do estado sincrônico da língua. Além disso, como a relação entre o significante e o significado é arbitrária, estará continuamente sendo afetada pelo tempo, daí a necessidade de o estudo da língua ser prioritariamente sincrônico. Sirva de exemplo o substantivo romaria, que significava originalmente “peregrinação a Roma para ver o Papa”. Hoje, no entanto, é usado unicamente para designar “peregrinação religiosa em geral”. Entre nós, por exemplo, são muito comuns as romarias a Aparecida do Norte,
Advirta-se, contudo, o seguinte: Saussure postula a prioridade da sincronia e, convém lembrar, prioridade não significa exclusividade. De nossa parte, entendemos a distinção sincronia / diacronia unicamente como procedimentos metodológicos de análise linguística. A esse respeito, ouçamos as ponderações, até certo ponto premonitórias, do próprio Saussure (p. 16):
A cada instante, a linguagem implica ao mesmo tempo um sistema
estabelecido e uma evolução: a cada instante, ela é uma instituição atual e um
produto do passado.
A língua,
portanto, será sempre sincronia E diacronia em qualquer momento de sua
existência. O ponto de vista da ciência linguística é que poderá ser OU sincrônico OUdiacrônico, dependendo do fim
que se pretende atingir. E há determinados casos, por exemplo, em que a descrição sincrônica pode perfeitamente ser
conjugada com aexplicação diacrônica,
enriquecendo-se, desse modo, a análise feita pelo linguista. Por exemplo,
podemos descrever o verbo pôr como pertencente à segunda conjugação,
apelando para as formas sincrônicas atuais pões, põe, puseste, etc., além dos
adjetivos poente e poedeira,
nos quais o -e- medial aí existente (ou remanescente) funciona
estruturalmente como vogal temática. Ao mesmo tempo, podemos enriquecer a
descrição sincrônica, complementando-a com a explicação diacrônica: o atual
verbo pôr já foi representado pelo infinitivo
arcaico poer, que, por sua
vez, se vincula ao latim vulgar ponere,
com a seguinte cadeia evolutiva: poněre > ponēre > poner > põer > poer > pôr.Encarados sob essa perspectiva, os pontos de vista sincrônico e diacrônico não são excludentes, ao contrário, são complementares. Seja como for, vale registrar que Saussure, deixando de se preocupar com o processo pelo qual as línguas se modificam, para tentar saber o modo como elas funcionam, deu, coerentemente, primazia ao estudo sincrônico, ponto de partida para a Linguística Geral e o chamado método estruturalista de análise da língua.
Sintagma / Paradigma
Para Saussure,
tudo na sincronia se prende a dois eixos: o associativo (= paradigmático) e o
sintagmático.As relações sintagmáticas baseiam-se no caráter linear do signo linguístico, “que exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo” (p. 142). A língua é formada de elementos que se sucedem um após outro linearmente, isto é, “na cadeia da fala” (p. 142). À relação entre esses elementos Saussure (p. 142) chama de sintagma:
O sintagma se compõe sempre de duas ou mais unidades consecutivas: re-ler, contra todos, a vida
humana, Deus é bom, se fizer bom tempo, sairemos, etc.
Colocado na
cadeia sintagmática, um termo passa a ter valor em virtude do contraste que estabelece com aquele que o
precede ou lhe sucede, “ou a ambos”, visto que um termo não pode aparecer ao
mesmo tempo que outro, em virtude do seu caráter linear. Em “Hoje fez calor”,
por exemplo, não podemos pronunciar a sílaba je antes da sílaba ho, nem ho ao mesmo tempo que je; lor antes de ca, ou ca simultaneamente com lor é impossível. É essa cadeia fônica que
faz com que se estabeleçam relações sintagmáticas entre os elementos que a
compõem. Como a relação sintagmática se estabelece em função da presença dos
termos precedente e subsequente no discurso, Saussure a chama também de relação in præsentia.Por outro lado, fora do discurso, isto é, fora do plano sintagmático, se, em “Hoje fez calor”, dizemos hoje pensando opô-lo a outro advérbio, ontem, por exemplo, ou fez em oposição a faz, e calor a frio, estabelecemos uma relação paradigmática associativa ou in absentia, porque os termos ontem, faz e frio não estão presentes no discurso. São elementos que se encontram na nossa memória de falante “numa série mnemônica virtual”, conforme esclarece Saussure na pág. 143 do CLG.
O paradigma é assim uma espécie de “banco de reservas” da língua, um conjunto de unidades suscetíveis de aparecer num mesmo contexto. Desse modo, as unidades do paradigma se opõem, pois uma exclui a outra: se uma está presente, as outras estão ausentes. É a chamada oposição distintiva, que estabelece a diferença entre signos como gado e gato ou entre formas verbais como estudava e estudara, formados respectivamente a partir da oposição sonoridade / não-sonoridade e pretérito imperfeito / mais-que-perfeito. A noção de paradigma suscita, pois, a idéia de relação entre unidades alternativas. É uma espécie de reserva virtual da língua.
Define-se o sintagma como “a combinação de formas mínimas numa unidade linguística superior”. Trata-se, portanto, de relações (relação = dependência, função) onde o que existe, em essência, é a reciprocidade, a coexistência ou solidariedade entre os elementos presentes na cadeia da fala. Essas relações sintagmáticas ou de reciprocidade existem, a nosso ver, em todos os planos da língua: fônico, mórfico e sintático, ao contrário do que deixa entrever a definição do próprio Saussure, que nos induz a conceber o sintagma apenas nos planos mórfico e sintático. Sendo assim, o sintagma, em sentido lato, é toda e qualquer combinação de unidades linguísticas na sequência de sons da fala, a serviço da rede de relações da língua. Por exemplo, no plano fônico, a relação entre uma vogal e uma semivogal para formar o ditongo (ai /ay/); no nível mórfico, a própria palavra, com seus constituintes imediatos, é um sintagma lexical (am + a + va + s); sintaticamente, a relação sujeito + predicado caracteriza o sintagma oracional (Pedro / estudou a lição.).
Uma Visão Estilística
No plano da
expressão, as relações paradigmáticas operam com base na similaridade de sons.
É o caso das rimas (“Mas que dizer do poeta / numa prova escolar? / Que ele
é meio pateta / e não sabe
rimar?”, Carlos Drummond de Andrade), aliterações (“Vozes veladas, veludosas vozes”, Cruz e Sousa),
assonâncias (“Tíbios flautins finíssimos
gritavam”, Olavo Bilac), homoteleutos [ou homeoteleutos] (“Rita não tem
cultura, mas tem finura”, Machado de Assis).No plano do conteúdo, as relações paradigmáticas baseiam-se na similaridade de sentido, na associação entre o termo presente na frase e a simbologia que ele desperta em nossa mente. É o caso da metáfora: “O pavão é um arco-íris de plumas.” (Rubem Braga), ou seja, arco-íris = semicírculo ou arco multicor. Embora presente no texto em prosa, a metáfora é mais usual na poesia.
Já a metonímia, mais comum na prosa, por basear-se numa relação de contiguidade de sentido, atua no eixo sintagmático. Ex.: O autor pela obra: “Gosto de ler Machado de Assis”; a parte pelo todo: “Os desabrigados ficaram sem teto” (= casa); o continente pelo conteúdo: “Tomei um copo de vinho” (o vinho contido no copo), etc.
Conclusão
A visão
saussuriana da língua como um sistema de valores está intimamente associada à
sua célebre frase: “na língua só existem diferenças”, ou seja , ela funciona
sincronicamente e com base em relações opositivas (paradigmáticas) no sistema e
contrastivas (sintagmáticas) no discurso. Tendo como ponto de partida as idéias
motrizes contidas no Curso de
linguística geral, formaram-se várias escolas estruturalistas (fonológica
de Praga, estilística de Genebra, funcionalista de Paris, glossemática de
Copenhague), que deram consequência e continuidade ao pensamento infelizmente
inacabado do genial fundador da Linguística moderna. A visão da língua como um
sistema semiológico, a teoria do signo, com seus dois princípios fundamentais:
arbitrariedade / linearidade, a diferença entre sincronia (funcionamento) e
diacronia (evolução), a distinção fonética / fonologia, fone / fonema, a dupla
articulação da linguagem (1ª = plano do conteúdo ou morfossintaxe; 2ª = plano da
expressão ou fonologia), as noções de morfema e gramema, a tricotomia língua /
fala / norma são categorias linguísticas extremamente férteis, todas
decorrentes do pensamento de Saussure e hoje definitivamente incorporadas às
ciências da linguagem.
Bibliografia
CARVALHO,
Castelar de. Para compreender
Saussure. 12ª ed. Petrópolis: Vozes, 2003.SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. Trad de A. Chelini , José P. Paes e I. Blikstein. São Paulo: Cultrix; USP, 1969.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Texto de Mia Couto: “Três fantasmas mudos para um orador luso-afónico"
LEITURA RECOMENDADA - LP6
Profa. Lúcia Deborah
Três fantasmas mudos para um orador luso-afónico
Mia Couto
O orador avisado faz uso de toda a estratégia para considerar o
tema da palestra como sendo do domínio do impossível. Neste caso, sucedeu o
inverso: o tema é que tornou impossível o orador. Identidade, língua, marcas
culturais: são três fantasmas partilhando a mesma cama. E quando se entra no
quarto, acreditando surpreendê-los em flagrante delito eis que descobrimos que
não há cama, nem quarto, nem amantes.
Corremos o risco de somar aos três anunciados fantasmas um outro
inesperado. Esse outro fantasma sou eu mesmo. Venho de longe, para muitos de
vocês sou um escritor desconhecido. Sou moçambicano e Moçambique é do domínio
das miragens. Tenho uma pronúncia que, aos ouvidos da maioria dos brasileiros,
me atira para a identidade de um “português”.
O mais fácil, pensei eu, seria começar por desvanecer o meu
estatuto fantasmagórico. E é isso que tentarei fazer. Irei falar não de mim,
mas da língua portuguesa em Moçambique, da errante identidade de uma literatura
moçambicana e de marcas culturais brasileiras em sucessivas gerações de
escritores moçambicanos.
O centro da minha intervenção, porém, será a questão da
identidade. Ou das identidades no plural. Escolhi falar deste tópico
exactamente porque as identidades não são faláveis. Elas são esquivas,
fortuitas, inventadas. As identidades não são nomes. São verbos que se enunciam
sempre no futuro. Recorro a um provérbio dos macuas, um povo do norte de
Moçambique. E o provérbio diz assim:
Não fales sobre Deus porque Deus é como o ovo. Se apertas muito
ele quebra; se não agarras bem ele cai.
A mesma condição volátil contamina o tema da nossa conversa de
hoje.
A alguns de vocês terão visto o filme de Vítor Lopes sobre a
Língua Portuguesa onde aparecem João Ubaldo, José Saramago, Martinho da Vila e
outros. Quando dei o depoimento para este filme eu estava na Ilha da Inhaca,
onde durante anos trabalhei como biólogo na Estação de Biologia da Universidade
Eduardo Mondlane. (não só escritor, também sou uma pessoa séria...) Pois nessa
ilha passou-se o seguinte (fala de improviso):
Certa vez eu estava no cais de saída para a capital quando vi
chegar, num outro barco, que eu conhecera em Nápoles, um apaixonado pela África
que vinha pela primeira vez a Moçambique. Ele não sabia uma palavra de português
e viajava por sua conta para a ilha de Inhaca, durante a minha ausência. Na
despedida, ele a si mesmo se consolou: “pois nós os italianos falamos muito com
as mãos, vocês aqui também usam muito gesto, eu lá me entenderei...”
O homem ficou por lá uma semana, regressou a Maputo, feliz e
gratificado por ter conseguido um entendimento pleno. Mais tarde, eu lá fui
para a ilha, para a Estação de Biologia onde eu trabalhava. Cruzei com um velho
funcionário, perseguido pelo italiano e, logo, veio a inesperada observação:
“esse homem não tem juízo completo”. O que se passara? Pois, logo numa primeira
conversa um grupo de ilhéus quis saber do italiano se ele tinha filhos. A
resposta afirmativa foi reforçada com gestos para assinalar os tamanhos de seus
rebentos. E aqui sucedeu o mal entendido. O italiano marcou a altura dos filhos
com um gesto que, ali, na ilha era quase uma obscenidade. Qualquer europeu
fazia o mesmo: estenderia a mão, paralela ao chão. Mas nos códigos locais, a
mão plana, bem aberta, indica um objecto inanimado, um morto sem ligação
afectiva. A mão curva, fechada e virada para cima indica o tamanho de quem está
crescendo, de uma criança em trânsito para ser adulto. Que raio de pai era
aquele europeu que falava assim dos seus próprios filhos?
Recordei-me deste episódio porque a identidade é como o tamanho
da criança: está em trânsito, não pode ser capturada em gesto, nem em palavras.
Afinal, na pequena história que evoquei todos estão com a razão.
Está certo o gesto do italiano. Na lógica do meu amigo europeu, a pessoa só tem
tamanho quando se converte em medida, número e risco na fita métrica. Mas a
questão, para os ilhéus da Inhaca, é que um menino não é ainda uma pessoa. É um
indivíduo em trânsito para a idade adulta.
Na cosmogonia dos moçambicanos ninguém nasce pessoa. Vamo-nos
tornando gente à medida que somos iniciados por experiências e vivências.
É por isso que a criança pode ir mudando de nome, à medida que
cresce e cumpre rituais de passagem. O menino pequeno, quando falece, é
enterrado junto ao rio. Só depois de receber o seu segundo nome é que pode ser
sepultado em chão firme. É esse o nosso destino: nascemos água, vamos a caminho
de sermos terra.
Aqui há algo que é anterior às línguas, e que são as lógicas com
que vemos o mundo e o modo como damos nome às coisas e aos seres. No mundo
rural africano, a identidade é definida de forma aberta, transitável e
transitória. Alguém pode ser pessoa de dia, árvore de tarde e bicho de noite.
Os mortos podem usar a voz e o corpo dos vivos, a vida está disponível para ser
vivida pelos mortos.
Chegamos, assim, a uma primeira constatação: as identidades são
transitórias e precárias. O problema é que elas são quase sempre vividas como
definitivas e eternas. Mais grave ainda é que a identidade toma-se a si mesma
muito a sério. E atira-nos para a tentação de nos definirmos como essências,
entidades puras, certezas inabaláveis que justificam guerras e cruzadas.
Não sou um especialista para falar do tema que escolhi. Sou sim,
uma vítima predilecta dos equívocos gerados em redor da identidade. Já explico.
Na nossa vida quotidiana os dados de identificação são facilmente sumarizados e
constam de quase todos os formulários burocráticos. Esses dados são: o nome, o
sexo, a nacionalidade, a raça, a língua, a idade, o estado civil. Seguiremos
agora para cada uma dessas categorias e veremos como todas podem suscitar
curiosos embaraços. Comecemos pelo nome.
O nome
Aos dois anos de idade tive a infeliz idéia de reclamar um novo
nome para mim mesmo. Contra o António de nascença – eu inventei um outro nome:
Mia. Rebaptizei-me com esse nome em celebração com a minha vivência com os
gatos da vizinhança. Não é que eu gostava de gatos. Eu acreditava ser gato. Eu
não pensava: eu era um gato.
Veremos, mais tarde, que tive que pagar por esse meu rebaptismo.
O meu nome, esse que me confere a primeira identidade, tem-me causado um sem
número de penosos mal-entendidos. Já li, por exemplo, uma tese argumentando que
“Mia” é uma palavra africana bantu com significados mágico-religiosos.
Mais grave ainda é a forma com a tribo dos amantes de gatos me
têm adoptado como membro incondicional. Certa vez, numa cidade de Portugal onde
eu lançava um livro, uma simpática senhora me chamou e disse:
- Venha à minha livraria que eu quero que conheça o Gil Vicente.
Lá fui intimidado com a solenidade do encontro. Alguém que tinha
o nome do célebre dramaturgo lusitano seria certamente pessoa de valor. Entrei
na livraria, não havia ninguém. Foi quando a proprietária do estabelecimento se
aproximou da caixa registadora e apontou para um enorme gato. E anunciou com ar
formal:
- Gil Vicente, este é o escritor de que falei e que é um
apaixonado por gatos.
De imediato, já ela apontava uma câmara fotográfica para
eternizar em imagem o nosso encontro. Sugeriu para que me chegasse mais perto
do bicho e, no momento em que tentei fazer-lhe uma carícia, o gato deu-me uma
vigorosa dentada. Foi assim que surgi na fotografia, exibindo um esgar de dor e
espanto perante os dentes felinos que se cravavam no meu braço.
Até hoje, guardo a cicatriz desta dentada. A dona do
estabelecimento tornou-se uma amiga. E ganhei o orgulho de poder dizer que fui
mordido por Gil Vicente.
O sexo
Não é que eu possua, devo dizer à partida, dúvidas de identidade
neste capítulo. O problema são os mal-entendidos que decorrem do nome “Mia” que
se acredita ser um nome feminino. Há tempos, na Argentina, o protocolo do
Ministério da Educação que me tinha convidado, pediu para que esperasse na
recepção do hotel pois tinham que mudar algo na acomodação prevista. Soube,
depois, que me haviam reservado o chamado “quarto-cor-de-rosa”.
Numa visita como jornalista a Cuba, nos anos oitenta, recebi uma
prenda do Presidente Fidel. Era um pequeno baú de madeira, que seguiu no porão.
Estávamos em guerra, não tínhamos nada em Moçambique. A curiosidade
perseguiu-me durante toda a viagem de regresso: o que se escondia no caixote?
Chegado a casa não podia ser maior a minha desilusão: o baú continha eram
vestidos, brincos, colares. O protocolo cubano tinha sido ludibriado pelo tom
feminino do meu nome. Guardo a certeza de ter sido o único homem a quem Fidel
Castro ofereceu uma saia.
A raça e a etnia
Nos lugares chamados de “civilizados” ninguém pergunta a que
grupo étnico pertencemos. Mas quando se fala sobre África já se acredita que é
importante discriminar a pertença étnica. África para uma certa facilidade
televisiva explica-se facilmente pelas tribos e etnias.
A este propósito quero lembrar a história do missionário Henri
Junod que nos finais do século 19 saiu da Suíça Francesa para vir pregar em
Moçambique. Ao contrário das grandes potências europeias, a Suíça não tinha
colónias em África. A Igreja Livre de Lausane a que pertencia Junod só podia
sobreviver se encontrasse nos territórios africanos uma espécie de terra de
ninguém. Junod chegou a Moçambique e deparou com um conjunto de clãs dispersos
que se nomeavam a si mesmos em função da família dominante: havia os Kossas, os
Bilas, os Maluleques, os Matsolo, etc. O que Junod fez foi propor uma espécie
de língua franca a partir de variantes dialectais destes grupos. Fixou a
língua, codificou-a, organizou uma gramática e publicou um dicionário. Deu a
essa língua o nome de Tsonga. Depois sugeriu que os povos do Sul de Moçambique
fossem igualmente denominados por Tsongas. Encontrou uma generalizada
resistência. Tsonga era o nome que os invasores sul-africanos zulus davam aos
moçambicanos escravizados. Era um termo depreciativo. Mas o termo ficou e foi
abraçado por elites locais que estavam em conflito com a administração colonial
portuguesa. Ocorreu assim uma espécie de negociação entre as chefaturas negras
e os missionários suíços. Os religiosos suíços outorgavam uma identidade
etno-linguística e recebiam em troca, a legitimidade para a sua presença em
África. Eles faziam da língua aquilo que outros fizeram da terra.
Ainda hoje, mais de cem anos passados, uma grande parte dos
moçambicanos oficialmente designados como tsongas não se reconhecem nesse nome.
Mas a verdade é que cada vez há mais gente que não apenas se aceita como tsonga
mas acredita que essa identidade sempre existiu e que a sua etnia é tão antiga
quanto a Humanidade.
Este é um exemplo claro e recente de como se fabricam
identidades. Eu vivi esta revisitação histórica na companhia de um amigo meu,
que está na Suíça fazendo o seu doutoramento em filosofia.
Historio de Severino Nguenha. Ele me dizia em Genebra: quando
parti eu sabia que era Moçambicano. Aqui na Europa eu aprendi que era africano.
E como africano ele sentia que devia escolher um tema africano para a sua tese.
Mas ele não sabia o que escolher. Foi então que lhe sugeriram que visitasse um
missionário de noventa anos, de nome Clerg, que era dos poucos discípulos de
Henri Junod que ainda sobreviva. Nguenha nessa tarde mesmo foi a casa do velho
suíço, bateu à porta e escutou a voz cansada perguntando num francês rouco:
- Quem é?
- Sou um estudante que veio de Moçambique.
Então, Severino Nguenha escutou passos arrastando-se pelo
corredor e se arrepiou quando ouviu a pergunta:
- I wena mani? (quem é ?)
Clerk perguntava quem era, falando em tsanva. E o moçambicano
respondeu:
- Mina ni Nguonha. (Sou o Nguenha)
Então, retorquiu o suíço, então és um dos nossos, entra que esta
é casa dos tsongas.
Severino Nguenha, um moçambicano negro de quarenta anos de idade aprendeu naquele dia que era um tsonga, da mesma tribo de um suíço branco com mais de noventa anos.
Severino Nguenha, um moçambicano negro de quarenta anos de idade aprendeu naquele dia que era um tsonga, da mesma tribo de um suíço branco com mais de noventa anos.
A
nacionalidade
No tempo da infância, sempre que regressava das brincadeiras no
manguezal, quem me recebia em casa era o baiano Dorival Caymmi. As canções do
mar se repetiam infinitamente no velho toca-discos
e eu escutava
inebriado como era doce morrer no mar. E para mim já era claro: o que era doce
não era morrer mas o modo de dizer essa morte. Esse sotaque adocicado de uma língua
que era minha e que eu desconhecia me revelou um novo litoral na minha alma.
Severino Nguenha viu abrir as portas de identidade tsonga pela mão de um suíço.
A porta para uma outra condição de nação foi-me aberta pela canção de Caymmi.
Esse deslumbramento cresceu quando, mais tarde, se voltou a acender com os
poetas e os cantores brasileiros. Eu não apenas amava essa outra pátria sem
contornos. Eu me tinha convertido num brasileiro. E sempre que visito o Brasil
renovo essa cidadania de uma nação que inventei.
Amin Malouf escreveu um livro sobre aquilo que chamou de
“identidades assassinas”. Em resposta, necessitamos nós de assassinar a
identidade singular e redutora a que nos querem obrigar. Necessitamos assumir a
nossa condição errante, de eternos contrabandistas de culturas. Há que ter
raiz, sim. Mas quem tem demasiada raiz não chega nunca a ganhar asas.
Lembro um episódio que me aconteceu nos anos oitenta numa
pequena cidade chamada Malmo, no Sul da Suécia. Eu trabalhava na adaptação
teatral de textos meus quando uma das actrizes suecas organizou um jantar para
que eu conhecesse o seu professor de lambada, um brasileiro acabado de chegar à
Escandinávia. Esse natural do Rio de Janeiro abrira uma pequena escola de
danças brasileiras. A actriz estava encantada com o charme do professor carioca
e queria saber se ele poderia participar na peça teatral. Quando o brasileiro
entrou na sala e se apresentou, verifiquei com espanto que falava comigo em
italiano. Pensei, primeiro, que ele não soubesse o que era Moçambique e que
língua seria a minha. Mas não. O dito dançarino era italiano, nunca tinha
visitado o Brasil e não sabia uma palavra de português. Fazia-se passar por
brasileiro por razões de marketing de imagem. Entendemo-nos, à custa do meu
pobre italiano, perante o olhar encantado da actriz sueca que nos imaginava
falando em português. Embaraçado, o falso professor desculpou-se:
- Por favor, me entenda, não tenho outro emprego.
O que podia eu fazer senão entender? Já o italiano se despedia
quando regressou atrás e me segredou:
- E eu posso garantir-lhe uma coisa, quando danço lambada eu
deixo mesmo de ser italiano.
Quando mais tarde a actriz sueca me perguntou se havia gostado
do seu brasileiro, eu
respondi:
respondi:
- Não há lugar neste mundo em que não se encontre um pedaço do
Brasil.
Como podem ver, não apenas vou sendo abusivamente brasileiro
como até já conferi a nacionalidade brasileira a europeus em estado de aflição. Espero que nenhum agente da polícia de migração
esteja presente nesta sala.
No capítulo da nacionalidade e de como a nação define
identidades farei ainda referência a alguém que todos vocês conhecem. Todos
descobrimos os nossos mestres na arte de pular fronteiras identitárias. Para
mim o maior mestre foi um brasileiro chamado João Guimarães Rosa.
A
identidade da escrita
Sou moçambicano, filho de portugueses, vivi o sistema colonial,
combati pela Independência, vivi mudanças radicais do socialismo ao
capitalismo, da revolução a uma guerra civil que demorou 16 anos e fez um
milhão de mortos. Nasci num tempo de charneira, entre um mundo que nascia e
outro que morria. Entre uma pátria que nunca houve e outra que ainda está
nascendo. A minha condição sempre foi a de criatura de fronteira. As duas
partes de mim exigiam um medium, um
tradutor. A poesia veio em meu socorro para criar essa ponte entre mundos
aparentemente distantes. O que creio que todos carecemos é de um passaporte (ou
se quisermos esse password) para emigrarmos de nós, saltarmos a fronteira
daquilo que alguém chamou de identidade pessoal.
Quando li pela primeira vez Guimarães Rosa experimentei uma
sensação que já tinha sentido quando escutava os contadores de histórias da
minha infância. Perante o texto eu não simplesmente lia: eu ouvia vozes
antigas. Os livros de Rosa me atiravam para fora da escrita como se, de
repente, eu me tivesse convertido num analfabeto selectivo. Para entrar
naqueles textos eu devia fazer uso de um outro acto que não é “ler” mas que
pede um verbo que ainda não tem nome.
Mais que a invenção de palavras, o que me tocou foi a emergência
de uma poesia que me fazia sair do mundo, que me fazia inexistir. Aquela era
uma linguagem em estado de transe, que se deixava possuir como os mediuns das
cerimónias mágicas e religiosas. Havia como que uma embriaguez profunda que
autorizava a que outras linguagens tomassem posse daquela linguagem.
Exactamente como o dançarino da minha terra que não se limita a dançar. Ele
prepara a possessão pelos espíritos. O dançarino só dança para criar o momento
divino em que ele emigra do seu próprio corpo. O italiano da lambada também sabia disto.
Os contadores de histórias do meu país têm que proceder a um
ritual quando terminam a narração. Tem que “fechar” a história. “Fechar” a
história é um ritual em que o narrador fala com a própria história. Pensa-se
que os relatos históricos são retirados de uma caixa que nos foi deixada por
Guambe e Dzavane, o primeiro homem e a primeira mulher. No final da cerimónia,
o narrador volta-se para a história — como se a história fosse um personagem e
diz-lhe: “Volta para casa de Guambe e Dzavane”. É assim que a história volta a
ser encerrada nesse baú primordial.
O que acontece quando não se “fecha” a história? A multidão que
assiste fica doente, contaminada por uma enfermidade que se chama a doença de
sonhar. João Guimarães Rosa é um contador que não fechou a história. Ficamos
doentes, nós que o escutamos. E nos apaixonamos por essa doença, esse
encantamento, essa aptidão para a fantasia.
Volto à categoria da identidade. E vou falar na questão do
idioma.
A língua
Na categoria do idioma gostaria de me demorar um pouco mais.
Afinal, a língua é um dos temas de cartaz deste Fórum. E a pergunta que seria
preciso fazer não tem a ver comigo mas com o meu país, esse que confere
identidade colectiva a 17 milhões de habitantes. E a pergunta é esta: será que
Moçambique é um país de língua portuguesa?
E aqui gostaria de fazer um grande parêntesis. Nas zonas rurais
onde trabalho existe uma curiosa maneira de responder ás perguntas formuladas
por um estranho. Sobretudo se essas questões solicitam a cruel dicotomia do
“sim” e do “não”. Resolve-se da seguinte maneira: responde-se sempre sim. O
“não” simplesmente não se diz.
Esta forma de retórica (ou melhor esta ausência de retórica)
traduz a nossa condição geográfica: Moçambique já é Oriente. Não negar é uma
educação. Mas esta elegância de trato cria, por vezes, problemas aos que
necessitam de respostas claras e concisas. É o meu caso quando chego a uma zona
litoral e necessito organizar o meu trabalho. À minha pergunta:
- A maré está a subir?
A resposta já aconteceu assim:
- Está a subir, sim senhor, mas já começou a descer há mais de
duas horas.
Uma outra vez, tendo por missão identificar a fauna numa
floresta, perguntei a um velho que me acompanhava:
- Isto que está cantar é um pássaro?
- É, sim.
- E como se chama este pássaro ?, quis eu saber.
- Bom este pássaro, nós aqui em Niassa não chamamos bem-bem
pássaro. Chamamos de sapo.
Num balanço da aplicação do lema de governação “por um futuro
melhor” a Televisão de Moçambique fez um inquérito popular. A pergunta era:
“sente que a sua vida está a melhorar?” Um cidadão respondeu assim:
- “Está melhorar, sim senhor. Mas está a melhorar muito mal
Evoco estes episódios para regressar à questão inicial que é:
Moçambique é um país lusófono? Tomando a lógica rural eu responderia, pronto e
ligeiro: é, sim senhor. Mas sei que há outras lógicas que mandariam que eu
dissesse: não, Moçambique não é
um país lusófono.
Explico: fala-se hoje mais português em Moçambique que se falava
na altura da Independência. O governo moçambicano fez mais pela língua
portuguesa que os 500 anos de colonização. Em 1975, ano da Independência
Nacional, mais de 60 por cento dos moçambicanos não falavam português. Trinta
anos depois existem ainda 40 por cento de moçambicanos que não falam português.
Mesmos os que tem essa competência fazem-no como segunda língua. Hoje cerca de
7 por cento dos moçambicanos tem o português como língua materna. Nas cidades,
porém, este número já é de quase 20 por cento.
O meu país é, assim, um território de muitas nações e muitas
línguas (mais de vinte diferentes idiomas). O idioma português é a língua de
uma dessas nações — um território cultural inventado por negros urbanos,
mestiços, indianos e brancos. Sendo minoritário e circunscrito às cidades, esse
grupo ocupa lugares chaves nos destinos políticos e na definição daquilo que se
entende por moçambicanidade. A língua portuguesa não é a ainda língua de
Moçambique. Está-se exercendo, sim, como a língua da moçambicanidade.
Comecei a minha intervenção com alguns dados da minha meninice.
O que tem a questão da língua a ver com estas lembranças? Para manter
residência na infância necessito de uma língua em estado de infância. Essa é a
minha aposta quando escrevo. Tenho a meu favor o facto de Moçambique ser ele
próprio um lugar em infância, uma nação em flagrante invenção de si mesma e da
sua língua de identidade. Estranha coincidência: a minha pátria é-me
contemporânea. Fui nascendo com ela, ela está nascendo comigo. Eu e a minha
terra somos da mesma geração.
A minha língua portuguesa, repito a minha língua portuguesa, é a
pátria que estou inventando para mim. Essa língua nómada é viagem viajada,
namoradeira de outras vozes e outros tempos. O importante não é tanto a língua,
nem sequer o quanto ela nos é materna. Mais importante é essa outra língua que
falamos mesmo antes de nascermos. Nesse registo está a porta e o passaporte em
que todos nos fazemos humanos, fabricadores da palavra e, com igual mestria,
criadores de infinitas identidades.
Conclusão
— identidades fugidias
Tenho ao que parece a raça errada, o nome errado, o sexo errado,
e aqui no Brasil tenho a pronúncia errada. A verdade é que, para mim, a escrita
me ajudou a dissolver esses erros. Foi a aceitação da poesia como uma lógica
para entender o mundo que me deu a solução. E me fez criar um modo de ser outro
e outros, e me deu uma forma de desembarcar em novas entidades. Quando escrevo
sobre uma mulher eu me converto em mulher, quando escrevo sobre uma criança eu
sou uma criança. Essa liberdade contraria a ideia comum que nascemos para ter
uma única e singular identidade. Alguns insistem que a identidade pede pureza e
essência. A única maneira de sermos puros, porém, é sermos híbridos. A verdade
é que só seremos um se formos muitos. E só seremos felizes se abraçarmos
identidades plurais, capazes de reinventarem e se misturarem em imprevisíveis
simbioses e combinações.
Ensinaram-nos a ter medo da indefinição e da imprevisão. Mas nós
brasileiros e moçambicanos construímos sociedades em que a previsão não passa
de uma falível contingência. A força do oculto e do não nomeável é muito forte.
Devemos tirar partido disso: inventemos para nós a identidade que nos apetecer.
E façamo-lo não porque seja politicamente correcto mas porque nos dá prazer
sermos o que somos, mesmo que não saibamos exactamente o que isso é. Só
poderemos sentir prazer se criarmos um universo de diferença num mundo em que o
futuro se está já a escrever apenas em inglês.
Aquilo que nos torna próximos — a nós falantes do português no
Brasil, em Portugal e em África — não é apenas a língua mas componentes
culturais e, sobretudo, religiosos. Fomos moldados e moldamos percepções do
mundo que resultaram de migrações e transculturações antigas. Os nossos santos
são os mesmos. Os nossos santos protectores — mesmo que neles não acreditemos —
poderiam sentar-se nesta sala, no Rio, com o mesmo à vontade que manteriam em
Lisboa, Maputo ou Luanda.
O que estaremos discutindo nestes dias não são questões
académicas. O que está em debate é a possibilidade de sermos construtores de
identidades que, tal como a criança da ilha, não podem ser medidas, nem
reduzidas a um nome ou a um gesto. Estaremos falando, muito simplesmente, de
identidades, línguas e marcas culturais que nos tornem mais felizes, mais
humanos e mais solidários.
Esta é a derradeira história e, de novo, relembro algo ocorrido
na EB da Inhaca. Numa noite escura, eu e os meus colegas acabávamos de jantar
na varanda da Estação quando escutamos tambores e sinais de que haveria,
algures, uma festa. Decidimos ver o que se passava. Quando chegamos deparamos
não exactamente com uma festa mas com uma cerimónia de agradecimento pela
chegada das chuvas. Ao redor de uma fogueira havia só mulheres de uma certa
idade.
Receberam-nos com a maior das simpatias, foram buscar cadeiras
(os homens não se sentam no chão) e serviram-nos de ngovo, uma bebida
fermentada. Considerei que seria de bom tom usar da palavra para agradecer a
hospitalidade. Eu era o único branco entre os meus colegas e era o que menos
falava o xironga, a língua local. Quando nos dirigimos ao centro do pátio, as
mulheres fizeram silêncio e esperaram que começássemos a falar. O meu colega
porém, foi mandado calar logo nas primeiras palavras: Eh, Eh, se é para dizerem
quem são não queremos que falem, queremos que dancem. Vocês vão dizer quem são
e de onde vieram através da dança.
Entrei em pânico. Eu não danço coisa nenhuma e essa inaptidão é
tão funda que eu já imaginei que eu apenas escrevo porque não sei dançar. Mas o
problema é que os meus colegas dançavam qualquer coisa irreconhecível, uma
mistura de Michael Jackson e Zeca Pagodinho. As mulheres, ante o patético
espectáculo, levantaram os braços e clamaram: podem parar que nós não sabemos
que país será esse onde se dança assim.
Esse país onde se inventa uma identidade dançada é o mesmo onde
o italiano continua ensinando lambada, a mesma nação onde Guimarães Rosa vai
tornando as palavras dançáveis. E como diz o provérbio moçambicano: quem dança
não é o que levanta poeira; quem dança é aquele que inventa o seu próprio chão.
E muito obrigado.
COUTO, Mia. “Três fantasmas mudos para um orador luso-afónico “. In: VALENTE, André (ORG.). Língua portuguesa e identidade. Rio de Janeiro: Caetés, 2008. pp. 11-22
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
FONÉTICA E FONOLOGIA - A QUESTÃO DA NASALIDADE
Textos para leitura e trabalho sobre nasalidade:
ARTIGO DE SANTOS & AGUIAR:O ESPRAIAMENTO DO TRAÇO DE NASALIDADE NA COMUNIDADE DE FALA FORTANOGUEIRENSE
Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro Por Leda Bisol
A NASALIDADE DAS VOGAIS EM PORTUGUÊS José Mario Botelho (UERJ e ABRAFIL)
É claro que devem ser consultados, igualmente, Mattoso Câmara Jr. (Para o estudo da fonêmica portuguesa; História e Estrutura da Língua Portuguesa; Problemas de Linguística Descritiva); Dinah Callou e Yone Leite (Como falam os brasileiros, Iniciação à Fonética e Fonologia); Claudio Cezar Henriques (Estudos de Fonética e Fonologia) e Darcília Simões (Fonologia em nova chave).
PARTE I: Questões a serem respondidas preliminarmente:
1. Que tipos de nasalidade são encontráveis em português?
2. O que vem a ser espraiamento nasal e onde se manifesta?
3. O que vem a ser um travador nasal e como se manifesta?
4. O que distingue o travador nasal do fonema consonantal nasal não-palatal?
5. Como se desenvolveu o fonema nasal que o português não herdou do latim?
PARTE II: Sorteio de questões e elaboração do trabalho:
Ao apresentar as respostas às questões sorteadas, os grupos deverão ilustrá-las com exemplos extraídos da mídia cotidiana, transpostos ou transcritos, e comprovados por referências.
Assuntos correlatos que os grupos desejem abordar, como apoio para seu trabalho, poderão sê-lo, desde que sejam apresentadas referências bibliográficas correspondentes.
O trabalho deverá ser apresentado em versão escrita, em fonte ARIAL, em até 10 páginas, com capa e referências bibliográficas corretas, de acordo com as normas da ABNT.
Textos para leitura e trabalho sobre nasalidade:
ARTIGO DE SANTOS & AGUIAR:O ESPRAIAMENTO DO TRAÇO DE NASALIDADE NA COMUNIDADE DE FALA FORTANOGUEIRENSE
Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro Por Leda Bisol
A NASALIDADE DAS VOGAIS EM PORTUGUÊS José Mario Botelho (UERJ e ABRAFIL)
É claro que devem ser consultados, igualmente, Mattoso Câmara Jr. (Para o estudo da fonêmica portuguesa; História e Estrutura da Língua Portuguesa; Problemas de Linguística Descritiva); Dinah Callou e Yone Leite (Como falam os brasileiros, Iniciação à Fonética e Fonologia); Claudio Cezar Henriques (Estudos de Fonética e Fonologia) e Darcília Simões (Fonologia em nova chave).
PARTE I: Questões a serem respondidas preliminarmente:
1. Que tipos de nasalidade são encontráveis em português?
2. O que vem a ser espraiamento nasal e onde se manifesta?
3. O que vem a ser um travador nasal e como se manifesta?
4. O que distingue o travador nasal do fonema consonantal nasal não-palatal?
5. Como se desenvolveu o fonema nasal que o português não herdou do latim?
PARTE II: Sorteio de questões e elaboração do trabalho:
Ao apresentar as respostas às questões sorteadas, os grupos deverão ilustrá-las com exemplos extraídos da mídia cotidiana, transpostos ou transcritos, e comprovados por referências.
Assuntos correlatos que os grupos desejem abordar, como apoio para seu trabalho, poderão sê-lo, desde que sejam apresentadas referências bibliográficas correspondentes.
O trabalho deverá ser apresentado em versão escrita, em fonte ARIAL, em até 10 páginas, com capa e referências bibliográficas corretas, de acordo com as normas da ABNT.
terça-feira, 24 de maio de 2011
3a SÉRIE - MORFOLOGIA
EXERCÍCIOS DE LÍNGUA PORTUGUESA – PROFA. LÚCIA DEBORAH
ESTRUTURA E FORMAÇÃO DE PALAVRAS - I
1. (UFPI-PI - modificada)
Após a morte, o corpo começa a enrijar e não há rogo ou súplica que impeça esse processo.
As palavras enrijar e rogo foram formadas, respectivamente, por derivação:
a) parassintética - sufixal
b) parassintética - regressiva
c) prefixal - sufixal
d) sufixal - prefixal
e) prefixal - regressiva
2. (UFPB-PB) A alternativa que apresenta processo de derivação prefixal, conforme desobedecer, é:
a) desmaiar.
b) deslizar.
c) desonrar.
d) despachar.
e) deslumbrar.
3. (UNIRIO-RJ) Marque a opção correta quanto à classificação dos elementos mórficos destacados nos vocábulos abaixo.
a) mundo: desinência de gênero
b) sagacidade: sufixo formador de. substantivo
c) compõem: vogal temática
d) destroem: desinência modo-temporal
e) amor: radical
4. (FUVEST-SP) Nas palavras atenuado, televisão, percurso temos, respectivamente, os seguintes processos de formação de palavras:
a) parassíntese, hibridismo, prefixação.
b) aglutinação, justaposição, sufixação.
c) sufixação, aglutinação, justaposição.
d) justaposição, prefixação, parassíntese.
e) hibridismo, parassíntese, hibridismo.
5. (PUCC-SP) Observe: o verbo atrair produz atração. Usando esse modelo, aponte os substantivos para:
a) aspergir
b) mudar
c) isentar
6. (FUVEST-SP) Assinale a alternativa em que uma das palavras não é formada por prefixação:
a) irregular, amoral, demover
b) remeter, conter, antegozar
c) readquirir, predestinado, propor
d) irrestrito, antípoda, prever
e) dever, deter, antever
7. (ESAM-RN) Assinale a alternativa cujas palavras são, respectivamente: parassintética, onomatopaica e híbrida.
a) anoitecer - coaxar - televisão
b) deslealdade - chilrear - automóvel
c) fidalgo - zunzum - embarcar
d) descobrimento - tique-taque - decímetro
e) enriquecer - zás-trás - pernalta
8. (CESGRANRIO-RJ) Marque a série em que ambos os vocábulos sejam formados com o prefixo in- significando negação, privação:
a) ilegal/introduzir
b) imigrar / imoral
c) impor / ininterrupto
d) improdutivo / improvisar
e) inativo / irreal
9. (COVEST-PE) Assinale a alternativa em que o prefixo latino não apresenta o mesmo sentido que seu correspondente grego:
a) des- (desleal) / an- (anemia)
b) intra- (intramuscular) / endo- (endovenoso)
c) supra- (supra lingual) / epi- (epiderme)
d) ad- (adjetivo) / dia- (diáfano)
e) bene- (benefício) / eu- (eufonia)
10. (ITA-SP) Assinale a opção cujos radicais substituem respectivamente as expressões a seguir: poder que vem dos ricos - inflamação da boca - medo de doença - aversão à sociedade
a) aristocracia - ortodontia - tanatofobia - xenofobia
b) democracia - buconite - cinofobia - filantropia
c) oligarquia - dispneia - hipnofobia - antropófago
d) plutocracia - estomatite - nosofobia - misantropo
e) pentarquia - cefalalgia - hipocondria - antropófobo
11. (CESGRANRIO-RJ) Assinale a opção em que os dois adjetivos formam substantivos graças à adição dos mesmos sufixos observados em precariedade e escassez:
a) submisso - nu
b) solidário - formoso
c) idôneo - viúvo
d) paciente - embriagado
e) igual - doce
12. (UECE-CE) Pertence à área semântica de chuva a palavra:
a) pluvial
b) plúmbeo
c) fulvo
d) cúpido
13. (CEAP-AP) Assinale a alternativa em que a forma verbal corresponde à estrutura radical + vogal temática + desinência modo-temporal + desinência número-pessoal.
a) admira
b) esquecendo
c) modulava
d) conformou
e) juntavam
14. (UEPB-PB - adaptada) O texto a seguir foi extraído da capa da revista Veja de 12 de junho de 1995.
"O micreiro de 13 bilhões de dólares Aos 39 anos, o gênio dos computadores Bill Gates vira o homem mais rico do mundo"
O substantivo sublinhado, recentemente adicionado à língua portuguesa, se caracteriza por:
a) derivação imprópria.
b) derivação sufixal.
c) derivação prefixal e sufixal.
d) parassíntese.
e) processo de composição por justaposição.
15. (UA-AM) Assinale o item composto exclusivamente com substantivos comuns de dois:
a) cônjuge consorte carrasco
b) algoz testemunha - guia
c) celetista cliente intérprete
d) equilibrista criança pianista
e) pessoa nenê poeta
16. xxxxxxx
17. (UNI-RIO-RJ)
"Lá está o Maracanã, rampas gigantescas, assentos intermináveis, tudo pronto para o grande desfile de angústias e paixões que precedem a glória de um chute. "
Respeitando o processo coesivo textual, no trecho acima, os elementos sublinhados atualizam, respectivamente,
a) assentos intermináveis / o grande desfile de paixões
b) Maracanã / o grande desfile
c) desfile de angústias / rampas gigantescas
d) assentos intermináveis / angústias e paixões
e) rampas gigantescas, assentos intermináveis angústias e paixões
18. (UFPel-RS) O texto publicitário a seguir, pelo adequado jogo de palavras, ironiza uma situação.
PARAR DE
ANUNCIAR
TAMBÉM
GERA VENDAS.
MUITAS
EMPRESAS
FORAM
VENDIDAS
BARATINHO
POR CAUSA
DISSO.
(Diário Popular, 9/9/2001.)
a) Qual é a ironia presente nessa propaganda?
b) O pronome isso, contido na última palavra da peça publicitária, remete a que expressão?
19. (UNI-RIO-RJ) A opção em que não há correspondência entre a palavra destacada e a classe gramatical a ela atribuída é:
a) "Mal se foi o Salgueiro," - conjunção.
b) "Por que, então, chorar a festa passada...". -locução adverbial.
c) "... o verde rebentou verdíssimo." - advérbio.
d) "... de área a área," - preposição.
e) "... e no instante infinito de um gol" - substantivo.
20. (UNICAP-PE) Assinale a opção que não completa adequadamente o enunciado a seguir:
Uma das formas de manter vínculos seguros entre o que se disse e o que se vai dizer é recorrer aos pronomes, ...
a) formando uma cadeia: "O sujeito que assalta (...) leva seu cachorro à praia cheia...";
b) indefinindo as referências, o que torna as idéias ainda mais generalizantes: "Aval a quem não respeita", "os outros se danem", "a lei é para todos e ninguém está acima";
c) criando expectativa em relação ao que ainda vai ser dito, como é o caso do demonstrativo em: "O que essa corrente de sociólogos sustenta é que, se os pequenos delitos forem coibidos, os grandes diminuem";
d) retomando idéias e períodos completos: "Para que isso fique bem claro...";
e) substituindo termos imediatamente anteriores, como fazem os relativos: "O que permite que os homens possam viver em sociedade é um acordo tácito, um pacto determinando que o direito de um termina onde começa o do outro".
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